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Quando o amor é cura

  • Foto do escritor: Marcelly Silva
    Marcelly Silva
  • 26 de jul.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de out.

*texto escrito por humana


E se, enquanto a vida segue, a gente para no tempo?



Neste episódio do Podcast Morada do Sentir, conto como foi profundo e tocante acompanhar o florescer do amor entre Woo-jin e Seo-ri, protagonistas da série Trinta mas dezessete — um amor que se transformou em cura.


Trinta mas dezessete é uma série coreana que conta a história de dois jovens de 17 anos que se apaixonaram em segredo e, por causa de um grave acidente, ficaram separados por 13 anos. Quando se reencontram, ainda sem se reconhecerem um ao outro, eles vão se aproximando aos poucos e se apaixonando outra vez.


Esta série não é só mais um romance fofo. Ela fala sobre trauma, sobre luto — e também sobre cura.


Mais do que isso: é sobre como a gente se cura através do amor.


Ela nos mostra como a experiência de amar pode se revelar uma força transformadora e reparadora.


capa do podcast morada do sentir

De formas diferentes, os dois paralisaram suas vidas aos 17 anos: ela, por ter ficado em coma durante 13 anos; ele, pelo trauma de ter visto acontecer, diante dos seus olhos, o acidente que a colocou em coma. 


Por causa de um mal-entendido, ele passou todos esses anos achando que ela tinha morrido no acidente — e que a culpa era dele.


A única forma que ele conseguiu lidar com toda essa carga emocional pelo trauma vivido foi fugindo. E ele passou boa parte da sua vida em lugares literalmente muito distantes e isolados no mundo. Mas, nenhuma distância, por maior que fosse, era suficiente para afastar a dor imensa que ele sentia.


A culpa que ele carregava era tão grande que ele se afastou de tudo e de todos, evitando qualquer contato afetivo. O maior medo dele era o de se envolver com alguém e interferir tragicamente na vida dessa pessoa — como acreditava ter feito com ela.


Ela, depois de 13 anos, acordou do coma no corpo de uma mulher de 30 anos, mas se reconhecendo como a menina que era — uma adolescente de 17 anos, ainda muito inocente, imersa na sua forma peculiar de estar no mundo e de compreender a vida: cativante e curiosa.


Quando eles se reencontram, ambos com 30 anos, estão os dois enfrentando suas dificuldades particulares — tentando sobreviver aos traumas vividos.


O desafio para ela foi o de reconstruir o mundo após acordar em uma realidade totalmente nova, que foi lhe revelando tantas perdas, de forma crua e desoladora: o abandono da família, a ausência total de notícias dos amigos, a perda dos anos não vividos, a carreira promissora interrompida, a adolescente que ela foi e que não teve oportunidade de amadurecer no seu tempo. Ela se viu sozinha — e precisando atravessar vários lutos profundos e dolorosos.


Para ele, o desafio foi o de conviver com aquilo que ele considerava ser a verdade: ter causado a morte de uma pessoa de quem gostava muito. E com a retomada do contato com ela, ainda que ele não soubesse quem ela era, as similaridades que ele via em relação à menina que acreditava ter morrido, fizeram com que ele revivesse flashbacks dolorosos, trazendo à tona o seu trauma com uma intensidade cruel.


capa do episódio

Para mim, foi muito tocante acompanhar o quanto ele se viu completamente desamparado e extremamente vulnerável. Na tentativa de conseguir dar conta de se autorregular minimamente, ele se recolhia cada vez mais, como se quisesse desesperadamente desaparecer — como se sentisse que não tinha o direito de existir.


Quando sofremos um trauma muito grande, isso pode nos fazer interromper o fluxo da vida pelo medo de sofrer aquilo tudo outra vez. Um medo que é muito legítimo e muito real, mas que acaba dificultando o nosso reconhecimento de lugares seguros para viver com mais espontaneidade e liberdade.


Por isso, é tão importante buscar ajuda profissional quando vivemos experiências devastadoras. Na história da série, algo que o ajudou a lidar com o trauma — e também a compreender os impactos da presença dela na vida dele — foi o acompanhamento terapêutico que ele fez. Além disso, a convivência com pessoas amorosas também foi fundamental para o seu processo de cura.


Para mim, é exatamente nisso que está a beleza da história desse casal: em como eles foram suporte um para o outro em tempos tão difíceis. De maneira sensível, cuidadosa, singela e muito profunda foram construindo algo tão precioso, e aquecendo, de pouquinho a pouquinho, o coração um do outro.


É uma relação muito bonita, e uma conexão tão real, que foi sendo vivida por eles naturalmente, com leveza, com ternura, num ritmo que respeitou o tempo de cada um e que acompanhou, gentilmente, o amadurecimento deles.



Foi comovente assistir esses dois jovens desenhando em detalhes,

com traços finos, delicados, mas firmes, um solo sagrado

onde sentiram que podiam habitar e florescer.



Enquanto eu acompanhei essa história tão rica e tão inspiradora — assim como agora, ao contar sobre isso — senti meu coração preenchido de amor ao ver esse milagre da vida acontecendo.


O trauma não é algo que se supera. Não conseguimos fazer com que ele desapareça completamente. As experiências traumáticas fazem parte da nossa história e contribuem para a forma como percebemos o mundo e como constituímos o nosso ser.


O que é possível, e desejável, é que consigamos apoio adequado para nos ajudar a desenvolver recursos para lidar com o trauma vivido, integrando-o à nossa história de modo que nos permita manter a nossa abertura para a vida e ampliar as nossas possibilidades no mundo.


Mesmo quando o trauma não é aparentemente muito grande ou facilmente identificado, como foi no caso da história de Trinta mas dezessete, ainda assim pode trazer impactos significativos para o curso da nossa vida. Por isso, precisamos buscar ajuda profissional de uma psicóloga e também identificar os nossos portos seguros nas pessoas que estão à nossa volta, que fazem parte da nossa vida íntima e que nos doam amor.



podcast

Quantas vezes, assim como em Trinta mas dezessete, nos fechamos — com medo de nos machucarmos de novo ou por causa de uma culpa devastadora que carregamos?


Quantas vezes nos sentimos sozinhas e desconectadas de nós mesmas, do mundo, do momento presente?


Quantas vezes desejamos ter por perto pessoas que nos ofereçam aconchego e acolhimento para as nossas dores mais profundas?


Eu sigo na esperança de que sempre tenhamos em nossas vidas pessoas que sejam abrigo — que construam com a gente terrenos seguros, onde possamos caminhar com liberdade e de braços abertos para receber o que há de mais bonito na vida…


Que o amor esteja sempre muito vivo em nós — como parte de quem somos, como cura e como caminho que nos leva a outras pessoas também cheias de amor para compartilhar…


Encerro por aqui, com o desejo de que encontremos gente disposta a ser esse porto seguro de cura e de abertura para nóse que também sejamos amparo, em reciprocidade e gratidão.


Até o próximo episódio!


Com amor, Marcelly



Este episódio do Podcast Morada do Sentir

está disponível em formato de áudio no Spotify e no Youtube



Você gostaria de ajuda para lidar com seus traumas? Faça terapia.

Eu posso te acompanhar — com escuta, presença e profundidade.






Trilhas do Sentir — uma experiência da Morada do Sentir


Conheça também a Trilhas do Sentir: uma imersão sonora no universo da obra que me inspirou o episódio da Morada do Sentir que você acabou de acompanhar. Preparei esta seleção de músicas com afeto para ser uma companhia gentil — um convite para continuar sentindo a história. Deixe-se envolver e acolha o que toca o seu coração.


Ouça aqui mesmo ou no Spotify

*se aparecer pra você somente como prévia, no Spotify você ouve as músicas completas.



E se quiser sentir de perto essa história, a série está disponível na Netflix.


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